Trajetória entre política e magistratura
Durante sua sabatina em dezembro de 2023 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado para assumir a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino afirmou que deixaria a vida política em todas as suas dimensões caso fosse aprovado. “Gosto muito da atividade política […], respeito muito a política, a vivo muito intensamente há 17 anos, mas sei que, em merecendo a aprovação aqui na CCJ e no plenário, é claro que eu deixo a vida política em todas as dimensões, inclusive nas redes sociais”, declarou.
Essa alternância entre os papéis de magistrado e político acompanha a trajetória de Dino desde o início. Ele iniciou sua militância como líder estudantil, seguiu carreira no direito e atuou como juiz federal por 12 anos. Em 2006, deixou a magistratura para disputar sua primeira eleição, elegendo-se deputado federal pelo PC do B, e permaneceu na atividade política por 18 anos até ser nomeado ministro do STF pelo presidente Lula.
Controvérsias no Supremo e no Maranhão
A transição direta do governo Lula, no qual Dino foi ministro da Justiça, para a cadeira no STF suscitou questionamentos sobre seu posicionamento: seria um magistrado com passado político ou um político atuando na magistratura? Essa dúvida voltou à tona na sessão de 15 de agosto, que analisou se o ministro Alexandre de Moraes deveria ser investigado pela relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Enquanto analistas criticaram Dino por comportamentos considerados contraditórios e agressivos, o bolsonarismo o apontou como alvo devido à sua liderança na ala pró-Moraes. Já nas redes sociais ligadas à esquerda, Dino foi saudado como um nome combativo e cogitado como possível candidato à Presidência em 2030.
O vice-governador do Maranhão, Felipe Camarão (PT), pupilo de Dino e candidato ao governo estadual, declarou à Folha que o Brasil merece ter Dino como presidente após o fim de sua missão no Supremo. Camarão, que foi alçado à política por Dino e ocupou cargos estratégicos em seus governos, é visto como uma aposta para manter a influência do grupo no estado.
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Disputa política e judicial no Maranhão
No Maranhão, o antigo grupo político liderado por Dino enfrenta uma disputa com a base do governador Carlos Brandão (MDB), ex-vice de Dino, que lançou o sobrinho Orleans Brandão como candidato ao governo. Essa rivalidade tem reflexos no Judiciário, com vários processos importantes para a política local sob relatoria do próprio Dino no STF.
Entre os investigados estão membros do clã Brandão e aliados do governador, em casos que vão desde desdobramentos de assassinato em São Luís até normas para indicações ao Tribunal de Contas do Estado (TCE). Decisões recentes de Dino afetaram diretamente aliados do governador, como o afastamento de Daniel Brandão da presidência do TCE e a prisão domiciliar do secretário Raimundo Cutrim.
Apesar das críticas, Dino afirma não haver motivos para se declarar impedido de julgar esses casos, ressaltando que as hipóteses legais de impedimento previstas no Código de Processo Penal não se aplicam a ele nas situações em questão.
Áudios vazados e acusações de influência política
Desde que assumiu o STF, Dino enfrenta suspeitas de manter articulações políticas no Maranhão. Em outubro de 2025, áudios vazados mostraram “dinistas” negociando com o grupo Brandão para pacificar o estado e ajustar indicações ao TCE. Nas conversas, aliados de Dino condicionavam decisões políticas ao apoio em candidaturas municipais, principalmente em Colinas, reduto dos Brandão e do deputado federal Márcio Jerry (PC do B), um dos principais aliados de Dino.
Os interlocutores citados nos áudios foram Jerry, o deputado federal Rubens Junior (PT-MA) e Diego Galdino, ex-chefe da Casa Civil do governo Dino. Rubens Junior afirmou na Câmara que foi gravado ilegalmente e que buscou a pacificação a pedido do governador, com Dino e o juiz federal Ney Bello atuando como mediadores. Dino teria afirmado que não estava mais na política e que processos judiciais devem ser tratados nos autos, não em negociações políticas.
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Fonte: odiariodorio.com.br
O vazamento gerou a demissão de Rubens Pereira, pai de Junior, do governo e aprofundou o racha no grupo. Em áudios não divulgados anteriormente, uma voz semelhante à de Rubens mencionava que Dino não abriria mão da indicação de Camarão como candidato ao governo, ressaltando que ele é como um filho para o ministro.
A assessoria de Dino reforçou que o ministro está afastado da política desde fevereiro de 2024 e não comentaria críticas que não têm relevância para processos judiciais. Ney Bello, citado nas mensagens vazadas, não respondeu oficialmente, mas negou envolvimento político e criticou a distorção das conversas.
Impactos e próximos passos
O trânsito de Dino entre a política e o direito chegou a causar um ato falho no presidente Lula, que em entrevista de outubro de 2025 mencionou Dino entre os responsáveis políticos do Maranhão, embora ele já estivesse no STF há quase dois anos. O cenário atual indica que a disputa pelo controle político do Maranhão seguirá marcada por desdobramentos judiciais e articulações nos bastidores, com Dino no centro desse processo.
O próximo movimento político no estado deverá acompanhar as decisões do STF sob a relatoria de Dino, assim como as articulações em torno das eleições de 2026, que prometem redefinir o equilíbrio de poder local e nacional.
