Abstenção e Votos Nulos em Alta nas Eleições de 2026
A poucos dias das eleições de 2026, o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), projeta que a abstenção pode alcançar níveis inéditos nas últimas décadas, superando até mesmo o recorde registrado em 2022. Além disso, o especialista prevê um aumento significativo nos votos brancos e nulos.
Segundo Nicolau, o eleitorado demonstra desânimo diante da repetição da polarização entre petismo e bolsonarismo, que domina a campanha e limita o debate político. A crise recente no Supremo Tribunal Federal (STF) também contribuiu para ofuscar as discussões sobre as propostas dos candidatos.
Perfil da Abstenção e Implicações Políticas
Em seu livro O país dividido, lançado pela editora Zahar, Nicolau dedica um capítulo para analisar o comportamento dos eleitores que deixaram de votar nas seis eleições presidenciais entre 2002 e 2022. Os dados indicam que a abstenção não é uniforme e que fatores como gênero e escolaridade influenciam o comparecimento às urnas. Mulheres tendem a votar em maior proporção, favorecendo candidatos como Lula, enquanto eleitores de baixa escolaridade apresentam menor participação, o que pode prejudicá-lo.
Outro aspecto destacado é a redução do custo para justificar a ausência nas eleições. Com a adoção do e-Título, o processo ficou mais simples e menos penalizador, aproximando o Brasil de um cenário de voto facultativo na prática, apesar da obrigatoriedade legal.
Motivações por Trás da Abstenção
Questionado sobre as razões para a abstenção, Nicolau apontou três grupos principais: idosos com mais de 70 anos, que não são obrigados a votar; eleitores fora do domicílio eleitoral que não transferiram seus títulos; e pessoas que enfrentam dificuldades no dia da eleição, como doença ou trabalho.
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Contudo, há ainda um segmento que opta por não votar como forma de manifestação política, por descrença nos candidatos e no sistema. Embora esse grupo seja difícil de mensurar, sua presença pode crescer em eleições caracterizadas por baixo interesse e oferta limitada de opções.
Impacto da Repetição da Polarização e Crise no STF
A persistência da polarização entre Lula e Bolsonaro, com ausência de candidatos de centro-esquerda, contribui para o desinteresse do eleitorado moderado. Nicolau destaca que o cenário atual reforça a rejeição e a tendência ao voto nulo ou à abstenção, configurando uma espécie de “terceiro turno” das eleições de 2022.
Além disso, a crise política envolvendo o STF dominou o debate público por semanas, prejudicando a campanha eleitoral e desviando a atenção dos eleitores para temas institucionais, em detrimento das propostas políticas. Esse cenário reforça o afastamento de parte da população em relação à política.
Candidaturas Emergentes e o Espaço para o Centro
O cientista político também comentou sobre a ascensão de candidatos como Augusto Cury, que representam uma alternativa para eleitores menos politizados e insatisfeitos com a polarização. No entanto, o alcance limitado de tempo de TV e a ausência de debates dificultam a expansão desse eleitorado.
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Consequências da Abstenção para os Candidatos
Quanto ao impacto da abstenção nos resultados eleitorais, Nicolau observa que o efeito depende da distribuição geográfica e social dos eleitores que deixam de votar. Mulheres e eleitores de baixa escolaridade tendem a apresentar comportamentos distintos, o que pode favorecer ou prejudicar determinados candidatos, mas não há como prever com precisão os efeitos antes da apuração.
O especialista ressalta que a abstenção pode funcionar como um sinal de desgaste político, expressando o cansaço da população com o cenário eleitoral atual. Ainda assim, a participação dos eleitores pode surpreender nas últimas horas antes da votação.
Desafios para a Participação Política no Brasil
Nicolau enfatiza que, mesmo com o voto obrigatório, sempre haverá um contingente significativo de eleitores menos engajados, como ocorre em outras democracias. O Brasil mantém uma das maiores taxas de comparecimento do mundo, mas a tendência é que o voto facultativo, de fato, se consolide na prática, com menos eleitores nas urnas.
Para o cientista político, é fundamental que instituições, partidos e meios de comunicação continuem estimulando a participação política, embora reconheça que ampliar significativamente o comparecimento será um desafio crescente nas próximas eleições.
