Abstenção eleitoral: um fenômeno complexo
Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno das eleições de 2026, um número que representa 21,08% do eleitorado apto a votar. Apesar do volume expressivo, o cientista político Jairo Nicolau, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) e autor de “O País Dividido”, alerta que essa estatística não pode ser interpretada simplesmente como uma massa desinteressada pela política. Segundo ele, a abstenção reúne perfis variados, que vão desde eleitores desobrigados a votar até pessoas com problemas cadastrais ou dificuldades logísticas para votar.
Motivos diversos para a ausência nas urnas
Em entrevista ao g1, Nicolau explicou que não há dados suficientes para determinar quantos brasileiros deixaram de votar por falta de interesse. “A gente não sabe porque não há pesquisa”, afirmou, destacando que os institutos costumam concentrar seus levantamentos nas intenções de voto, não nas razões para a ausência. Pesquisa Datafolha divulgada em 9 de outubro apontou que os principais motivos para a abstenção foram viagem (19%), problemas de saúde (18%), desinteresse (13%) e trabalho (9%). Além disso, relatos de eleitores destacam a burocracia para transferência do título e dificuldades de acessibilidade aos locais de votação.
Um exemplo concreto é o caso da eleitora Bianca Dantas, que, após passar por cirurgia no joelho, não conseguiu subir escadas para votar. “Quantas pessoas deixaram de votar por essa mesma razão? Pessoas que sofreram acidentes, enfim, e isso foi muito frustrante para mim”, relatou ao g1.
Distribuição geográfica e social da abstenção
Nicolau analisou a abstenção dividindo os municípios em grupos por tamanho do eleitorado e região. O Nordeste registrou a menor taxa de abstenção, 18,4%, seguido pelo Norte, com 19,4%. As maiores taxas ficaram no Sudeste (22,7%) e Centro-Oeste (21,7%). O Sudeste concentrou 15,1 milhões dos 32,9 milhões de eleitores ausentes no país, desconsiderando o exterior. O Nordeste também apresentou redução na abstenção, passando de 19,5% em 2022 para 18,4% em 2026, com aumento de 1,4 milhão de votantes.
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Porém, o pesquisador alerta para distorções causadas por municípios com mais eleitores registrados que habitantes, um problema presente em 716 cidades em 2026. Situações como mudança de domicílio sem transferência do título e eleitores falecidos ainda cadastrados influenciam essas taxas.
Perfis dos eleitores ausentes e impacto da obrigatoriedade do voto
O estudo detalhado de Nicolau sobre eleições anteriores revela que a abstenção se concentra em dois grupos: jovens de 18 a 29 anos, para quem o voto é obrigatório, e pessoas com 70 anos ou mais, especialmente mulheres com baixa escolaridade, que não são obrigadas a votar. No primeiro turno de 2022, 7,7 milhões de jovens nessa faixa não votaram. O pesquisador destaca também a alta abstenção entre jovens que tiraram o título facultativo aos 16 ou 17 anos.
Entre idosos, cerca de 4,5 milhões de mulheres com 70 anos ou mais, analfabetas ou com escolaridade até o ensino fundamental, optaram por não votar em 2022. Nicolau atribui parte dessas ausências a dificuldades de locomoção, saúde e distância até os locais de votação, além de cadastros desatualizados.
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Apesar do voto ser obrigatório para pessoas entre 18 e 70 anos, o pesquisador ressalta que as consequências do não comparecimento são limitadas. A facilidade de justificar a ausência via celular e a multa eleitoral baixa, de R$ 3,70, contribuem para que o voto obrigatório seja, na prática, facultativo. “É um voto obrigatório no papel, mas está se tornando um voto facultativo na prática”, avaliou.
Próximos passos e desafios para o segundo turno
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, os candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) já mobilizam suas bases para reduzir a abstenção. Lula pediu que eleitores tentem convencer quem não votou a participar do próximo pleito, enquanto Bolsonaro alertou para a importância de manter a mobilização.
A compreensão detalhada das razões por trás da abstenção e os perfis dos eleitores ausentes permanecem essenciais para as estratégias eleitorais e para o aprimoramento do sistema democrático brasileiro. A disponibilização de dados completos após o segundo turno poderá oferecer subsídios para análises mais aprofundadas sobre o fenômeno.
