Investigados pela CPI da Covid nas eleições
Em maio de 2021, o Brasil enfrentava uma média diária de quase dois mil mortos pela covid-19. Enquanto outros países avançavam na imunização, o governo federal deixava de responder a ofertas para compra de milhões de doses das vacinas do Instituto Butantan e da Pfizer. Naquele momento, apenas idosos acima de 60 anos e pessoas com comorbidades estavam sendo vacinados, consequência da insuficiência na aquisição dos imunizantes.
Paralelamente, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid tramitava no Senado com o objetivo de investigar possíveis responsáveis pela crise sanitária que já havia ceifado mais de 450 mil vidas. O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de diversas pessoas, incluindo integrantes do governo da época. Quatro anos depois, 13 desses investigados disputam cargos nas eleições deste ano.
Perfil dos candidatos e seus vínculos com a pandemia
Entre os nomes identificados pela Pública, o senador Flávio Bolsonaro (PL) concorre à presidência da República. Cinco candidatos disputam vagas no Senado: Wilson Lima (União-AM), Marcelo Queiroga (PB), Carlos Jordy (RJ), Bia Kicis (DF) e Carlos Bolsonaro (SC), todos do PL. Para deputado federal, tentam eleger-se Eduardo Pazuello (RJ), Nise Yamaguchi (SP), Osmar Terra (RS), Onyx Lorenzoni (RS) e Ricardo Barros (PR). Mayra Pinheiro (PL-CE) e Marcellus Campêlo (União-AM) concorrem às assembleias estaduais.
Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde até março de 2021, esteve à frente do ministério durante momentos críticos, como a crise de oxigênio em Manaus e a promoção do chamado “kit covid”. Marcelo Queiroga assumiu o ministério após Pazuello, enquanto Mayra Pinheiro manteve-se na Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, defendendo o tratamento precoce.
Wilson Lima era governador do Amazonas no colapso sanitário que resultou na falta de oxigênio, apoiado pelo secretário de Saúde Marcellus Campêlo. Nise Yamaguchi e Osmar Terra foram vozes ativas na defesa do tratamento precoce, apesar de Yamaguchi não exercer cargo formal no governo Bolsonaro.
No âmbito político, Onyx Lorenzoni, então ministro do Trabalho e Previdência, gerenciava o auxílio emergencial, e Ricardo Barros, líder do governo na Câmara, foi investigado pela CPI devido à negociação da vacina indiana Covaxin com preço superfaturado. Bia Kicis, Carlos Jordy e Carlos Bolsonaro atuaram nas redes sociais, propagando negacionismo e críticas às medidas sanitárias, o que motivou seu indiciamento. Flávio Bolsonaro também foi investigado por incitação ao descumprimento das medidas de combate à doença.
Acusações e indiciamentos apontados pela CPI
Eduardo Pazuello acumula as acusações mais graves, incluindo emprego irregular de verbas públicas, prevaricação, comunicação falsa de crime, crimes contra a humanidade e epidemia com resultado de morte. O relatório da CPI detalha que a demora na aquisição de vacinas pelo governo teria contribuído para pelo menos 127 mil mortes evitáveis em 2021, segundo estudos de instituições como USP, FGV, Instituto Butantan e London School.
Durante o período mais crítico, o governo federal realizou eventos com aglomeração, desconsiderou orientações técnicas, desencorajou o uso de máscaras e distanciamento social e promoveu tratamentos sem comprovação científica. O relatório conclui que houve uma estratégia sistemática para a propagação do vírus.
Além de Pazuello, Mayra Pinheiro, Nise Yamaguchi, Osmar Terra, Wilson Lima e Marcelo Queiroga também foram indicados por crimes relacionados à epidemia com resultado de morte. Pazuello, Lorenzoni e Mayra Pinheiro foram ainda apontados como possíveis autores de crimes contra a humanidade pelo foco em tratamentos ineficazes e pelo uso do Amazonas como laboratório humano.
Incitação ao descumprimento das medidas sanitárias
A CPI concluiu que Flávio Bolsonaro incitou o descumprimento das determinações públicas de combate à pandemia por meio de postagens nas redes sociais, incentivando aglomerações e rejeitando vacinas e máscaras. O senador rebateu as acusações alegando vingança política e contestou a fundamentação do relatório.
Provas apresentadas indicam que Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Osmar Terra, Onyx Lorenzoni, Ricardo Barros, Carlos Jordy e Bia Kicis divulgaram campanhas contrárias às evidências científicas, contribuindo para a disseminação de informações falsas sobre prevenção e tratamento da covid-19.
Acusações de corrupção e prevaricação
Além dos crimes sanitários, a CPI também recomendou indiciamentos por prevaricação relacionados à gestão da pandemia. Mayra Pinheiro, Marcellus Campêlo, Wilson Lima, Queiroga e Pazuello são apontados por negligência diante do iminente colapso do sistema de saúde em Manaus.
O caso da vacina Covaxin foi destacado pelo chefe da logística do Ministério da Saúde, Luis Ricardo Miranda, como um esquema de corrupção envolvendo sobrepreço e irregularidades, supostamente com conhecimento do então presidente Bolsonaro e de Pazuello. Ricardo Barros foi acusado de formação de organização criminosa e improbidade administrativa por sua participação nas negociações.
Desdobramentos judiciais e o cenário eleitoral
Embora o Ministério Público tenha arquivado as investigações na gestão Bolsonaro, houve reviravolta em setembro de 2025. O Supremo Tribunal Federal, por ordem do ministro Flávio Dino, determinou a abertura de inquéritos para investigar parte dos indiciados da CPI da Covid. Alguns candidatos, como Mayra Pinheiro, Marcellus Campêlo, Pazuello, Nise Yamaguchi, Queiroga e Wilson Lima, ainda não foram incluídos nos inquéritos.
Apenas o deputado federal Ricardo Barros respondeu às solicitações da Pública, afirmando ter “absoluta tranquilidade” diante das acusações e destacando que a Procuradoria-Geral da República não encontrou indícios suficientes para manter as investigações. Ele também declarou que as suspeitas não deverão impactar suas pretensões eleitorais.
Com o processo judicial ainda em andamento, o julgamento dos investigados não ocorrerá antes das eleições. A decisão final sobre a elegibilidade desses candidatos ficará a cargo do eleitorado em 4 de outubro, data em que serão realizadas as votações para cargos públicos.
