Relações Desafiadoras com os EUA
O próximo presidente da República terá pela frente ao menos dois anos de relações complexas com Donald Trump. O histórico do presidente americano, que não hesita em atacar aliados e adversários, aponta para uma continuidade na pressão sobre o Brasil para que ceda espaço aos interesses norte-americanos, segundo especialistas. Essa dinâmica cria um ambiente tenso para a formulação da política externa brasileira, especialmente diante da tentativa dos Estados Unidos de afastar o Brasil da China.
Esse ponto é delicado mesmo para um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), que mantém proximidade com Trump, mas precisa considerar a forte dependência da economia brasileira em relação a Pequim. A agenda do próximo chefe do Executivo também deve contemplar desafios como a regulação das big techs e o combate ao narcotráfico transnacional, além das decisões relativas a investimentos estrangeiros em terras raras e minerais críticos.
Disputa Geopolítica e Minerais Críticos
Os minerais críticos assumiram papel estratégico no debate geopolítico atual, especialmente devido à sua importância para setores de alta tecnologia, indústria de defesa e veículos elétricos. A corrida mundial pelos vastos depósitos brasileiros de terras raras intensificou-se, com Estados Unidos, China e Europa disputando o acesso a esses recursos.
Recentemente, o Senado aprovou o marco legal dos minerais críticos, que institui um conselho com poder de veto sobre parcerias estrangeiras, embora suas competências específicas ainda estejam em definição. Esse avanço reforça a centralidade do tema na política externa, pois envolve questões de soberania e segurança nacional.
Big Techs e Pressão Internacional
Outro ponto de tensão na política externa está na regulação das grandes empresas de tecnologia. Os Estados Unidos pressionam outros países para que evitem regras que possam prejudicar suas big techs, colocando o Brasil em um cenário delicado. A forma como o próximo governo lidará com essa demanda terá impacto direto nas relações comerciais e tecnológicas com as potências globais.
Leia também: Diplomacia Brasileira Enfrenta Desafio com Medidas de Trump
Leia também: Lula Foca em Entregas de Habitações Populares Após Semana de Política Externa
Fonte: alagoasinforma.com.br
Posicionamentos dos Candidatos
A Folha de S.Paulo consultou cinco campanhas presidenciais — Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Lula (PT), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) — sobre suas propostas de política externa. A única que não respondeu foi a de Flávio Bolsonaro.
O programa de governo de Flávio Bolsonaro, enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dedica apenas 2,5 páginas às relações exteriores, sem mencionar Brics, Mercosul ou Donald Trump. O documento enfatiza uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pragmatismo, afastando-se da ideologia, e promete reaproximação com parceiros como Argentina, Israel e Estados Unidos, além de negociações que abrangem desde a China até a União Europeia e mercados asiáticos.
Em artigo recente, Eduardo Bolsonaro, cotado para o Itamaraty em um eventual governo Flávio, defende um “realismo propositivo” e uma reforma administrativa com metas claras para o Ministério das Relações Exteriores. Ele destaca a necessidade de reconstruir a relação histórica com os Estados Unidos e preservar oportunidades econômicas com a China, reduzindo dependências e avaliando rigorosamente a presença chinesa em setores sensíveis.
Contrastes no Discurso Externo
Embora o discurso oficial de Flávio Bolsonaro seja moderado, entrevistas revelam um tom mais assertivo. Em junho, o candidato afirmou que o Brasil não se submeterá mais à China e criticou iniciativas comerciais em moedas distintas do dólar, além de considerar a saída do país do Brics. O candidato também propõe parcerias preferenciais com os Estados Unidos na exploração de minerais críticos e sugere um acordo de livre comércio com o país.
Para se contrapor ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PL), Flávio Bolsonaro aposta no tema da segurança pública como defesa da soberania nacional. Segundo o professor Feliciano Guimarães, do Instituto de relações internacionais da USP, essa estratégia é favorável para Flávio e desfavorável para Lula, especialmente após a designação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA, a pedido do candidato do PL.
Leia também: A Nova Política Externa de Lula: O Brasil em Busca de Protagonismo Global
Fonte: parabelem.com.br
Leia também: 39 membros do Conselhão cobram avaliação rigorosa dos investimentos do Fundo Clima
Fonte: noticiasdorecife.com.br
Enfoque de Lula na Soberania e Defesa
No programa de Lula, a palavra “soberania” aparece 42 vezes, refletindo a centralidade do tema em sua política externa. O capítulo dedicado ao assunto, intitulado “Defender a soberania nacional e o protagonismo internacional do Brasil”, destaca a complementaridade entre política externa e defesa nacional para proteger os interesses do país. Essa abordagem representa uma mudança significativa na linguagem tradicional da esquerda brasileira, conforme analisa Guimarães.
O governo Lula encara a regulação das big techs, o controle dos investimentos estrangeiros em minerais críticos e o combate às organizações criminosas transnacionais como pontos cruciais da política externa. Um integrante da campanha observa que esses assuntos nunca estiveram tão vinculados às questões internas do Brasil.
Continuidade e Próximos Movimentos
Lula promete manter o foco em instituições multilaterais e na aproximação sul-sul, que marcaram seus mandatos anteriores. Durante seu governo, o Brasil se aproximou da China e se distanciou dos Estados Unidos, optando por não participar de iniciativas como a aliança militar “Escudo das Américas” e o grupo de inteligência artificial “Pax Silica”, ambos criados por Trump.
Na equipe de um possível novo mandato, a continuidade é esperada. A assessoria internacional da Presidência, atualmente ocupada por Celso Amorim, deve ser assumida futuramente por seu adjunto, Audo Faleiro. Mauro Vieira permanece como ministro do Itamaraty, enquanto Mauricio Lyrio, líder da secretaria de Clima e sherpa do Brasil no Brics, ganha força como possível nome para assumir funções estratégicas no ministério.
