A presença da AfD nos bairros periféricos de Berlim
Moro na periferia de Berlim, em um conjunto habitacional construído pelo governo comunista na época em que a cidade ainda era dividida pelo muro. São prédios amplos, de arquitetura brutalista, que cercam praças com áreas verdes. Esses condomínios, administrados por cooperativas e situados longe do centro, oferecem aluguéis acessíveis e abrigam predominantemente imigrantes. Como em outras metrópoles, os grupos mais vulneráveis, como trabalhadores informais e pessoas com baixos salários, acabam concentrados nas bordas da cidade, ou, como é dito aqui, fora do “Ring”, o anel que delimita Berlim.
Propaganda e radicalização da AfD nas eleições estaduais
Durante uma caminhada recente pelo bairro, chamou atenção a presença de cartazes da Alternativa para Alemanha (AfD), partido de extrema direita, com slogans como “Migração precisa de Fronteira”, “Deportar imigrantes criminosos” e “Na escola, o alemão é mandatório”. Essas mensagens estão espalhadas por todo o bairro, numa clara estratégia de comunicação num momento em que ocorrem eleições estaduais em Saxônia-Anhalt, Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, além das municipais na Baixa Saxônia.
O conteúdo das propagandas não é apenas eleitoral: é um recado que revela a radicalização crescente da AfD, que tem ganhado espaço nas pesquisas eleitorais. Desde as eleições federais que elegeram o chanceler Friedrich Merz da União Democrata Cristã (CDU) em 2025, a deportação em massa tem sido a principal bandeira do partido, apresentada como solução para problemas políticos, econômicos e de segurança pública. Jovens apoiadores chegaram a cantar “Deportar aos milhares” em comícios, enquanto a AfD ficou em segundo lugar nas urnas.
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A escalada da retórica ultranacionalista e o avanço político
No fim do ano passado, participei disfarçada de um evento da AfD na Turíngia que avaliava os 10 anos desde a abertura das fronteiras por Angela Merkel aos refugiados. Os participantes receberam material com listas de nacionalidades e supostas taxas de criminalidade, enquanto imagens de criminosos árabes passavam em um telão. A plateia, formada por alemães de várias idades, aplaudia pedidos de deportações e o fim do multiculturalismo. Esse tom agressivo reforça o crescimento da AfD, que em Saxônia-Anhalt alcança 43% das intenções de voto para as eleições de 6 de setembro.
O desgaste do cordão sanitário e os desafios das coalizões
A co-líder do partido, Alice Weidel, declarou que pretendem formar o governo na Saxônia-Anhalt. Até o momento, a AfD não integrou nenhum governo estadual ou federal, pois os demais partidos mantêm um “cordão sanitário” contra o partido extremista. Contudo, essa barreira tem mostrado sinais de desgaste. Partidos tradicionais de direita e centro-direita perdem espaço e adotam pautas mais radicais para atrair eleitores, tornando a rejeição à AfD mais complexa.
No sistema parlamentarista alemão, a necessidade de formar coalizões torna mais difícil isolar a AfD. Nas últimas eleições federais, o partido de Merz teve que contornar a AfD, que ficou em segundo lugar, formando alianças com partidos menores para governar, um processo delicado e prolongado.
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Possibilidade de domínio absoluto e reconfigurações políticas regionais
Nas eleições regionais, principalmente na Saxônia, a AfD pode conquistar a maioria absoluta das cadeiras, o que permitiria que Ulrich Siegmund, principal candidato do partido, se tornasse o primeiro governador de estado eleito pela sigla desde sua fundação em 2013. Outra novidade é a possível entrada do partido BSW, de extrema esquerda, que declarou que pode romper o cordão sanitário para fazer coalizão com a AfD caso ultrapasse 5% dos votos.
Em Berlim, estado considerado mais progressista, o partido Die Linke lidera as pesquisas, seguido pela CDU, enquanto AfD e Verdes disputam posições próximas. O cenário eleitoral revela não apenas a possibilidade da extrema direita chegar ao poder em alguns estados, mas também sua influência crescente na transformação do cotidiano, alterando a paisagem urbana, o discurso público e as relações sociais.
O impacto institucional e social das eleições de setembro
A vitória da AfD não se restringe às urnas: seus projetos autoritários avançam na convivência diária e no ambiente dos bairros, instaurando um clima de medo entre os moradores. A disputa eleitoral evidencia um momento decisivo para as instituições e para a configuração do poder na Alemanha, com consequências diretas para a administração pública e para a sociedade civil. O próximo passo será acompanhar como as coalizões e as estratégias políticas vão se desenrolar diante desse quadro.